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quarta-feira, 5 de julho de 2017

[Noites nos Andes] A Nau Diacrônica

A Nau Diacrônica

07
Nauta, nautae
Astronave
Astronauta
O corpo nave
A alma nauta
Cosmonave
Cosmonauta

06
Nauta, nautae
Não nau no espaço
Não nau no nada
Crononave
Crononauta
Crosta do tempo
Rompida

05
Em contagem
Regressiva
Se faz físico
O que é memória
Memória torna
Ao que é matéria
E pedra fica
O que era pó
Toma forma
O que foi fumo
O que era cinza
Cinjo agora

04
Anjo que tange
Sinos e séculos
Singra o céu
Haec erat facies Troiae
So aquestas
Avelaneiras floridas

03
No cosmo
De sóis e caos
Ovo em vôo
No útero alfa

02
No éter eterno
A cronissagem
Em solo pretérito
Da estrela larval

01
A cápsula capta
Em vídeo-tape
Etapa por etapa
Os sete estágios
Do gênesis

00
Os computadores programam
Os módulos e os pólos
E parâmetros
Do juízo final

*  *  *

Degrazia, José Eduardo; et al. Noite nos Andes. Porto Alegre: edições URGS, 1977. 60 p.

[Noite nos Andes] Viagem de Trem pelas Ruas da Cidade

Viagem de Trem pelas Ruas da Cidade

1 - A viagem de ida

Entardecia,
Vinha das ruas,
Ruas antigas,
A carrocinha
De amendoim.
Depois parava
Defronte à praça
Em que eu morava,
Sua estação:
Locomotiva
De duas rodas
Puxada a mão.
E era verde,
Verde e dourada.
Tinha seu sino
Som cristalino.
Apito e fumo
Soltava pela
Chaminezinha.
Só que não tinha,
O trem, vagões.
Ah, tinha sim,
Vagões de vento
Pelas bitolas
Largas das ruas.
Eu embarcava
Nesses vagões,
Feitos de vento
E furacões.
E viajava
Todas as noites
Por ruas raras
De todo o mundo.
Eu, passageiro
Do mundo inteiro.
Nesse comboio
Que se tornou
Um trem noturno
Sigo viagem
Até agora.
Vai na bagagem
Tudo que vejo
Pelas vidraças:
Placas passando
Da Casa Ramos,
Da Casa Lyra,
Casa Krentel,
A Importadora,
A Sedutora,
A Instaladora.
Placas passando
Do Capitólio,
Do Cine Apolo,
Do Coliseu,
Onde eu fazia
A baldeação
Para outro trem,
O Trem Ciclone.
Último trem
Sai de Madri
Para Paris,
Na tela gris
Eu tomo o trem
Que sempre quis.
Vai o Expresso
Xangai-Pequim,
Perto de mim.
Desço do trem.
Da Pola Negri.
Entro de novo
No velho trem
Da carrocinha.
Volto do centro
Às ruas de antes
Até seu fim.

2 - A viagem de volta

Mas nessa volta,
No trem mudou
O que era verde
Pelo que é preto,
Mas o dourado
Permaneceu.
Ficou fumaça
Do que se foi.
Mudou o som,
O som do sino
Que de cristal
Ficou de cobre
Tocando um dobre
Feito de adeus.
Não tem apito,
Mas tem penachos,
Parecem cachos
De anjos de trajos
Roxos e negros.
Eu fico em meu
Vagão de vento,
De vento frio
E nele aguardo
A hora e a vez
Do desembarque
Que quero seja
De madrugada,
O sol nascendo,
Só eu morrendo,
Mas queira Deus
Que o trem atrase.

3 - Da viagem recomeçada

E depois quando,
Quando ventar,
Ventar de novo,
Sou eu que volto,
Volto na névoa,
Vestes de névoa,
Vulto na névoa.
*  *  *

Degrazia, José Eduardo; et al. Noite nos Andes. Porto Alegre: edições URGS, 1977. 60 p.

[Noite nos Andes] Navio Vazio

Navio Vazio

Havio barco, não havia cais;
Havia a chuva, a chuva sim, onde ia
Certo barco ancorado no jamais,
Farol azul num mar que não havia.

Nem existiam sugestões navais,
Nem praia ou proa ou porto, uma gonia
Tão só de barco em meio a temporais;
Barco, porém, depois de pôr-se o dia.

Se alguém entrasse, a sala não mais era,
Era barco, não sala, mas galera
Com altas velas pelo vento acesas.

E alvas velas de neve sobre as mesas
Derretiam-se em torno do pavio,
Qual no vazio as velas do navio.

*  *  *

Degrazia, José Eduardo; et al. Noite nos Andes. Porto Alegre: edições URGS, 1977. 60 p.